sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024
Sobre a integridade
quinta-feira, 4 de janeiro de 2024
Sobre a sacralidade da vida
Considerando o contexto sociocultural ocidental como um fluxo imparável, o qual atinge seu paroxismo no período contemporâneo, momento em que nem mesmo a sincera busca pela verdade moderna é levada em conta, tem-se de modo inegável um ambiente sui generis.
Nesse contexto, todas as coisas adquirem uma nova e mais pobre significação. Não se trata mais de um ceticismo à moda moderna, cujo propósito precípuo seria solapar as falsas considerações a respeito da realidade, para fazer emergir verdades certas e sem sombra de dúvidas, tal qual fez Descartes. Não! As verdades universais, sempre presentes nas considerações dos homens de bom senso, em todas as épocas, o que permitia a eles participarem do grande debate ( e do debate dos grandes) dos séculos, são vistas através das lentes da suspeita desconstrucionista.
Sendo assim, as grandes verdades das religiões, que muito serviram ao propósito da edificação humana e social, tornam-se antiquadas ao longo desse processo social que parece conduzir o homem a um subjetivismo sem medida, posto que acaba lhe retirando todos os referentes indispensáveis ao seu próprio desenvolvimento espiritual. Poderíamos elencar três possibilidades na qual esse materialismo acaba se expressando, as duas primeiras trabalhamos em nossa tese acadêmica: nas críticas contundentes e frontais às religiões; de modo mais sutil e elaborado através de um convite aberto ao homem contemporâneo para que mergulhe em um hedonismo vivencial e, como última e não menos trágica figura, temos à própria vivência falsa e problemática da espiritualidade, seja por ocasião de uma vivência que privilegia o bem-estar em detrimento dos deveres austeros, seja pela falsidade grosseira de buscar na relação com Deus uma ocasião para suprir os próprios interesses materiais, em detrimento dos espirituais.
Mas, mesmo diante dessa situação problemática, há uma espiritualidade a ser buscada da qual as religiões sérias sempre foram as fiadoras. Talvez um questionamento oportuno nesse momento poderia ser feito nestes termos: como enxergar o sagrado em um mundo cada vez mais hostil a considerações dessa natureza?
Havendo dois modos de ser no mundo, conforme considerações de Mircea Eliade, filósofo romeno e historiador das religiões, caberia ao homem contemporâneo uma conversão de vistas. Segundo o intelectual, o tempo e o espaço vem sendo considerado pelo sujeito de nossos dias como elementos amorfos, sem vida e homogêneos. Tudo é visto de modo profano, em sua materialidade fria e monótona. Entretanto, isso nem sempre foi assim. A sacralidade da vida sempre foi celebrada pelos homens ditos pré-modernos, que buscavam espaços no tempo para acolher as mensagens eternas do mais alto. O filósofo Romeno chamou esse fenômeno em que a cotidianidade da vida é iluminada pelo sagrado de hierofania.
Kiekergaard, intelectual que o precedeu, cunhou o termo instante, para referir-se basicamente a mesma ideia essencial, que diz respeito ao eterno quando avança sobre as brechas do tempo. Para o dinamarquês do século XIX, nesse momento existe a possibilidade de uma conversão radical do homem, uma mudança de vistas.
O que parece conduzir a nossa reflexão é questionar o próprio homem em seu modo de ser profano. Se a eternidade envolve o tempo, se a sacralidade é uma maneira de enxergar a própria realidade, o que faltaria nessa quadra histórica é uma nova abertura à realidade por parte do homem. O que vem tisnando as vistas desse indivíduo impelido pelo desconstrucionismo, o impedindo de enxergar essas hierofanias no tempo, é a maneira como percebe o próprio tempo, uma vez que vive a imediatidade sem reter dela qualquer elemento mais significativo. O que há de eterno em cada momento prosaico, em cada evento cotidiano, ele se torna incapaz de perceber. A eternidade que envolve o tempo, único elemento da realidade capaz de alimentar seu sequioso espírito, não é percebido por ele. Assim, o tempo torna-se o pano de fundo para a justaposição de eventos sem significado para a vida humana, e o homem passa de um a outro evento como quem atende a uma rotina, no afã, contudo, de frui-los em sua totalidade, julgando que essa fruição que logo revela seu caráter frágil e fugidio, representa a "felicidade" ou "uma vida plena".
Talvez o nosso principal desafio seja perceber essas hierofanias no tempo, fazer com que cada evento cotidiano torne-se enriquecido pela cifra de eternidade que carrega. Devemos buscar o sentido espiritual da existência que se esconde na materialidade aparentemente fria da natureza. Toda a nossa espiritualidade genuína, embora possa ser orientada por uma instituição humana, depende no fundo da nossa própria mudança de vistas, talvez uma mudança radical de percepção. Nesse sentido, podemos considerar a espiritualidade como um das atividades humanas mais desafiadoras ao homem, posto que lhe possibilita um constante trabalho de qualificação vivencial e, ao contrário das críticas que sugerem que tal coisa o faz mergulhar em uma espécie de neurose ou ilusão, torna-o, isto sim, mais aberto aos aspectos essenciais da realidade, em uma conexão bastante producente consigo e com os outros, em um equilíbrio entre interioridade psíquica e exterioridade mundana. Em suma, tudo se torna transparente a esse sujeito renovado: vê na matéria e nos acontecimentos o sentido transcendente que os sustenta e define. Adquiriu o sentido mais pleiteado em qualquer processo de individuação: vê com os olhos do espírito a própria sacralidade da vida.
quarta-feira, 27 de dezembro de 2023
Sobre a complementariedade entre fé e razão
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
A experiência humana como fonte de transcendência
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Combate interior
“Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim.” Filipenses, 1:30
Surgiu, contudo, um momento em que o Senhor lhe convoca o espírito a outro gênero de batalha – o combate consigo mesmo.
Chegada essa hora, Paulo de Tarso cala-se e escuta…
Quebra-se-lhe a espada nas mãos para sempre.
Não tem braços para hostilizar e sim para ajudar e servir.
Caminha, modificado, em sentido inverso. Ao invés de humilhar os outros, dobra a própria cerviz.
Sofre e aperfeiçoa-se no silêncio, com a mesma disposição de trabalho que o caracterizava nos tempos de cegueira. É apedrejado, açoitado, preso, incompreendido muitas vezes, mas prossegue sempre, ao encontro da Divina Renovação.
Se ainda não combates contigo mesmo, dia virá em que serás chamado a semelhante serviço.
Ora e vigia, prepara-te e afeiçoa o coração à humildade e à paciência. Lembra-te, meu irmão, de que nem mesmo Paulo, agraciado pela visita pessoal de Jesus, conseguiu escapar.
Emmanuel
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Músicas para meditação
domingo, 16 de abril de 2017
O Eu Superior
quarta-feira, 8 de março de 2017
Reflexão sobre a intuição da duração em Bergson e a espiritualidade.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
A energia espiritual - Bergson
sábado, 10 de dezembro de 2016
A vida espiritual e a vida intelectual
Falar de vida espiritual é tratar das relações mais profundas que o ser humano é capaz de estabelecer consigo mesmo, com os outros e com Deus. A espiritualidade, como experiência, pode ser fruída por pessoas ligadas a quaisquer cultos e crenças e, liturgias e ritos à parte, constitui a substância última e o ápice de toda vida orientada para o mistério da transcendência. O mistério, ainda que não possa bem ser explicitado por não caber ou não poder ser dimensionado pela linguagem, pode ser, na concepção de Maritán, fruído em uma experiência que ultrapassa toda e qualquer relatividade do mundo material.
O ser humano espiritualizado (independente se possui ou não uma religião) , onde os valores da verdade, da honestidade estão melhor atualizados, é um instrumento muito mais hábil e rico para se abrir ao mundo dos sensíveis e, através do processo que conduz ao conhecimento, aproximar-se da verdade, seja através do uso metódico da razão, na filosofia, seja mediante o recurso da experimentação, na ciência moderna. Os nossos desejos e crenças, no caso específico da ciência, estão a todo momento interferindo e obliterando a obtenção de uma representação fidedigna do real. O que falar então quando o que nos motiva no ato cognitivo não é o conhecimento em si mesmo, mas a validação destes apriorismos. Quando o espírito não possui o sentimento orientado para a valorização do conhecimento como um fim em si mesmo, que carrega um valor em si, intrínseco, e, portanto, digno de ser trazido à luz e apreciado, creio que muito do que poderíamos chamar de conhecimento já não existe mais.
Somos da opinião que a vida espiritual deve sempre preceder à vida intelectual, pois o uso dos meios disponíveis a expressão do nosso espírito, sejam as artes, a filosofia, a poesia ou a ciência, encontrarão um cognoscente muito mais maduro porque temperado e lapidado pelas experiências da vida. Não existe honestidade intelectual em uma alma que ainda não é honesta, da mesma maneira que não existe expressão de ciência respeitável em uma alma que ainda não consegue apreciar o valor e a beleza que a busca e a apreciação da verdade carregam. A vida intelectual, como uma dimensão da vida em que o conhecimento em sentido estrito é visado, é uma dimensão restrita e complementar da vida espiritual, de onde o cognoscente, através de disciplina e exercício, à semelhança da vida intelectual, entra em contato com os valores que irão lhe subsidiar e fortalecer em toda a caminhada que ao conhecimento conduz. Espiritualidade e conhecimento são no fundo duas faces necessárias e complementares que tornam o homem mais sábio. Sábio porque já capaz de integrar o que de melhor as experiências da vida podem lhe oferecer: os valores e princípios. Sábio porque capaz de, através destes mesmos valores e princípios, orientar de maneira irretocável a sua conduta ético-metodológica na busca por leis, relações causais e significados. Quando o valor que o conhecimento em si mesmo carrega já nos move, quando a honestidade já nos exorna o caráter, então o trabalho espiritual já está sendo frutuoso, restando apenas que nos arrisquemos pelo fastidioso, porém compensador, caminho que nos conduz ao conhecimento. Não é por outra razão que Allan Kardec certa vez enunciou, com relação a complementariedade da vida moral e intelectual, uma normativa que se eternizou nos meios espíritas que, com grande atualidade, dizia: "Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí- vos, eis o segundo."
sábado, 22 de outubro de 2016
O caminho da cruz e a espiritualidade
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Metafísica Aristotélica: a ciência do Ser
A viagem que conduz ao conhecimento começa através das sensações, que decorrem do contato humano com a realidade exterior. Os animais, por natureza, nascem dotados da capacidade de sentir, e a partir das sensações que experimentam, em alguns se forma a memória e em outros não. Os animais onde a memória surge, diz o filósofo, são mais perspicazes do aqueles em que a memória não se engendra.
Os homens tem uma peculiar característica com relação aos outros animais inferiores, que é a capacidade de, através da memória, que compreende as diversas recordações dos objetos e fatos ocorridos no mundo, formarem a experiência. A experiência nada mais é do que o conhecimento das coisas particulares. Os objetos do mundo físico, os outros homens, são compreendidos pelo experiente como instâncias pertencentes a certos tipos, como instâncias de universais.
A prudência [3] só se desenvolve no Ser cognoscente, portanto, quando, a partir da passagem do tempo, e com o auxílio das sensações e da memória, ele começa a produzir um tipo menos preciso de conhecimento, a partir da repetição e do contato com os objetos e fatos do mundo exterior. Cabe ressaltar que este tipo de saber ainda não representa o ápice do conhecimento e nem satisfaz os propósitos de Aristóteles no que tange à ciência buscada.
O saber de fato, prossegue o filósofo, pertence mais a técnica do que a experiência, pois somente a ciência e a técnica podem favorecer o homem com o conhecimento das explicações profundas ou causas. A pergunta que norteou todo o processo do conhecimento em Aristóteles, “ o que é isto?” só pode ser respondida de modo satisfatório nesta etapa do processo de conhecer. É nesta etapa que se situam os sábios e o seu conhecimento dos universais. A sabedoria [2] é, deste modo, a ciência dos universais. Ela é possuída pelos sábios, que se distinguem dos experientes por serem conhecedores de princípios e causas que representam o ápice da jornada do conhecer, compreendida em quatro momentos( sensação- memória- experiência- ciência ou técnica), no qual somente o último nível traduz o conhecimento buscado por Aristóteles, conhecimento em sentido estrito.
Metafísica aristotélica- o princípio de não-contradição
Compete ao filósofo, portanto, e não aos estudiosos da natureza, estabelecer os princípios fundamentais sobre os quais a ciência do Ser deve se fundamentar. O estagirita chega ao conhecimento daquele que é o primeiro princípio, o mais firme de todos, o princípio de não contradição, pelo qual é impossível que um mesmo atributo pertença e não pertença a um mesmo subjacente ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Segundo o filósofo, portanto, é impossível que os contrários pertençam a mesma coisa ao mesmo tempo, de modo que sobre esse princípio é impossível se enganar, visto que as pessoas se enganam sobre aquilo que desconhecem, e ademais, esse princípio está fundamentado na própria estrutura da realidade, de maneira que ele não se qualifica como uma mera hipótese.
Sendo o princípio de não contradição o mais conhecido, sobre o qual é impossível se enganar e necessário, cabe a Aristóteles a defesa do mesmo, conforme o faz no capítulo 4 da metafísica, utilizando a prova por retorsão. Aqui cabe uma pequena distinção feita pelo filósofo sobre a demonstração e a demonstração refutativa. Segundo assevera, ao demonstrar, o interlocutor já postula o princípio a ser defendido, enquanto que em uma prova por refutação, não haveria demonstração nesse sentido considerada. Segundo Lear, a estratégia que Aristóteles adota não é a de convencer alguma pessoa que não acredita no princípio de não contradição, e sim mostrar que mesmo negando o princípio ou não acreditando nele, dele se utiliza, de maneira necessária, quando busca compreender a realidade.
O estagirita não pretende exigir que o seu adversário afirme que algo é ou não é, mas exige que o interlocutor apenas queira dizer algo com sentido para si mesmo e para outrem.O responsável pela demonstração é o próprio adversário que, ao afirmar que o princípio de não contradição não existe, postula uma declaração com sentido e, portanto, acaba por demonstrar o princípio. Algo não pode ser e não -ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, conforme sustenta o princípio. Portanto, se o princípio de não contradição é falso, tem um significado, e não é verdadeiro ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Logo, ao recusar o princípio, postulando uma declaração, o adversário acaba ele mesmo por demonstrar, por refutação, o princípio.
Mesmo que não acredite no princípio, ao enunciar algo com pretensão de verdade, o interlocutor acaba por acionar o mesmo. O princípio de não contradição tem, deste modo, uma forma ontológica, ou seja, está inscrito na própria estrutura do real;e uma forma psicológica, conforme referido, já que se algo existe na estrutura da realidade, é impossível conceber a realidade sem fazer referência a este algo. É impossível conceber que um atributo pertença e não pertença ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto a um ente. O branco e o não branco não coexistem ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto em um mesmo subjacente, o quente e o não quente, o ser e o não ser, e assim por diante. O princípio de não contradição é o mais incontestável, portanto, e fundamento para a ciência do Ser na medida em que, segundo Lear, a própria possibilidade da ação, do pensamento e de uma atitude discursiva dependem da adesão, ainda que inconsciente, à sua verdade.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Os desertos da vida
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
A experiência da vida e os valores intrínsecos e perenes
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Cuidar do corpo e do espírito- O evangelho segundo o espiritismo
Essa postagem é a transcrição de uma mensagem do capitulo XVII de O evangelho segundo o espiritismo, intitulada "Cuidar do corpo e do espírito".
















