quarta-feira, 8 de março de 2017

Reflexão sobre a intuição da duração em Bergson e a espiritualidade.




De todas as modalidades que conduzem o homem ao conhecimento do mundo físico e de si próprio, a intuição é aquela através da qual, de maneira súbita e intensa, ocorre como que uma interpenetração entre o cognoscente e o cognoscível no próprio ato de conhecer, e isso de tal modo que é revelada uma dimensão estruturante da realidade e que serve como base para outras camadas mais superficiais da mesma, refiro-me ao âmbito dos primeiros princípios. Em outras palavras, e tendo como referência a filosofia Bergsoniana, intuir é aproximar-se de um objeto de maneira imediata, sem as mediações da linguagem e dos conceitos científicos e filosóficos, os quais já carregam em si uma alta dose de historicidade e, portanto, de significados sedimentados ao longo do tempo. É também imediato porque ao invés de tangenciar apenas os aspectos acidentais de um objeto, atinge o âmago ou a substância mesma da coisa.
Os princípios primeiros são realidades, expressas através da linguagem, que sustentam e financiam todo o empreendimento filosófico. Não são conhecidos a posteriori, ou seja, derivados da experiência,  nem são produtos de um silogismo racional, posto que servem como base para o uso correto e seguro da razão. Em filosofia, exemplos desses princípios primeiros os encontramos em Aristóteles (princípio de não contradição), em Kant (a ideia de causalidade) entre outros.. E até mesmo em empiristas como David Hume que, ao creditar que todo o conhecimento é derivado da experiência, não concedendo nenhuma possibilidade para o conhecimento a priori, enuncia o seu próprio apriorismo: o de que todo o conhecimento surge somente através da experiência.
Mas qual seria a relação entre o conhecimento destes primeiros princípios e a espiritualidade? E quanto ao método? Como adentrar nessa tão vital dimensão, para utilizar um enunciado Bergsoniano.
Para o filósofo Francês, os seus antecessores perderam de vista o elemento principal da realidade, que a sustenta e define: o movimento. Movimento significa transformação, mudança, realização da coisas em si mesmas, de sua naturezas intrínsecas. O movimento é, portanto, o fluxo ininterrupto e não sujeito a apreensão mediante a linguagem, podendo ser apreendido de maneira imediata somente através da intuição da duração. Apreendido não seria bem o termo preciso, talvez experimentado.
A experiência da duração interior em Bergson possibilita o conhecimento do movimento enquanto tal, já que, segundo o filósofo, a razão analítica opera de tal modo que acaba dividindo e espacializando esse fluxo vital em posições mensuráveis e justapostas no espaço. É como se o uso da razão, mediante seus métodos e conceitos, promovesse  uma cristalização do real, uma fotografia de momentos específicos com vistas ao exercício de atividades humanas práticas, sobretudo as científicas. Entretanto, a mudança em si mesma, sua natureza, não seriam apreendidas. A ideia principal aqui é a de que a razão sempre opera abstraindo certos aspectos da realidade, como as posições que se sucedem em um dado fenômeno, mas sem conseguir conceber o movimento como realmente é: como um fluxo, não estático, não apreeendido através de posições que se sucedem no tempo, visto que, por ser fluxo, suas posições se interconectam em uma espécie de "corrente de rio".
A esse estado de "corrente de rio", Bergson denominou Duração.  É o lugar onde a natureza das coisas se menifesta de maneira direta ao espírito, onde o movimento é experimentado como um fluxo, e portando, em sua real dimensão.
A proposta bergoniana de interioridade radical para a apreesão dos primeiros princípios conflui muito com as ideias clássicas que temos sobre a espiritualidade e os meios que utilizamos para vivencia-la. Um espiritualista mesmo, seja de que religião for, e que já atingiu um certo nível de maturidade espiritual, sente (e não somente sabe), que a realidade é estruturada mediante certos fundamentos e princípios básicos e que, com efeito, o desenvolvimento do espírito guarda relação ou é dependente da vivência desses postulados, sejam eles epistêmicos, éticos ou estéticos.
 Toda a vida espiritual, nossos desejos, instintos, volições, devem ser orientados por essa realidade última, ou primeira, pois é nela que encontramos os elementos básicos que irão fazer como que nossa alma se revele no que tem de melhor, que se realize, e que, utilizando uma metáfora bem apropriada, floresça. Entrar em sintonia com a vida, viver de acordo com seus propósitos mais elevados é entrar no movimento da vida, no que ele tem de mais sublime e sagrado. Entrar nesse movimento, segundo as grandes tradições espirituais, é realizar-se plenamente, e realizando-se, participar do grande movimento que comunga a todos, os que florescem e os que não querem por ora florescer. Sair da apreensão estática da razão por alguns períodos e experimentar a si mesmo e ao mundo de maneira radical, sentindo a nós mesmos e as coisas que nos rodeiam como se fossem realidades completamente novas, sem a carga valorativa dos conceitos já elaborados por outras pessoas, traz em si dois aspectos que são indissociáveis: a profunda felicidade da descoberta e a inadiável vivência da disciplina espiritual, que garantem o florescer humano.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A energia espiritual - Bergson


“Os filósofos que especularam sobre o significado da vida e sobre o destino do homem não observaram bem que a própria natureza se deu ao trabalho de informar-nos sobre isso: avisa-nos por meio de um sinal preciso que nossa destinação foi alcançada. Esse sinal é a alegria. Estou falando da alegria, não do prazer. O prazer não passa de um artifício imaginado pela natureza para obter do ser vivo a conservação da vida; não indica a direção em que a vida é lançada. Mas a alegria sempre anuncia que a vida venceu, que ganhou terreno, que conquistou uma vitória: toda grande alegria tem um toque triunfal. Ora, se levarmos em conta essa indicação e seguirmos essa nova linha de fatos, veremos que em toda parte há alegria, há criação: quanto mais rica é a criação, mais profunda é a alegria. A mãe que contempla seu filho alegra-se, porque tem consciência de havê-lo criado, física e moralmente. Acaso o comerciante que desenvolve seus negócios, o fabricante que vê sua indústria prosperar, alegra-se por causa do dinheiro que ganha e da notoriedade que adquire? Evidentemente riqueza e consideração contam muito na satisfação que sente, porém lhe trazem mais prazeres do que alegria; a alegria verdadeira que ele desfruta é ter montado uma empresa que funciona, de ter dado a vida a algo. Pensem na alegrias excepcionais, a do artista que realizou seu pensamento, a do cientista que descobriu ou inventou. Ouvirão dizer que esses homens trabalham pela glória e obtêm suas alegrias mais vivas da admiração que inspiram. Profundo erro! O homem dá importância aos elogios e as honrarias na exata medida em que não está seguro de ter obtido êxito. No fundo da vaidade há modéstia. É para tranquilizar-se que ele busca aprovação, e é para sustentar a vitalidade talvez insuficiente de sua obra que gostaria de cercá-la de calorosa admiração dos homens, como se coloca em estufa uma criança nascida prematuramente. Mas quem estiver seguro, absolutamente seguro de que produziu uma obra viável e duradoura, esse não tem mais o que fazer do elogio e sente-se acima da glória, porque é criador, porque sabe disso e porque a alegria que sente é uma alegria divina. Portanto, se em todos os âmbitos o triunfo da vida é criação, não devemos supor que a vida humana tem sua razão de ser em uma criação que, diferentemente daquela do artista e do cientista, pode prosseguir a todo  momento em todos os homens: a criação de si por si, o engrandecimento da personalidade por um esforço que extrai muito do pouco, alguma coisa do nada e aumenta incessantemente a riqueza que havia no mundo?”


Autor: Henri Bergson (1859-1941)
Livro: A energia espiritual, cap: 2; pag, 22

sábado, 10 de dezembro de 2016

A vida espiritual e a vida intelectual




    Falar de vida espiritual é tratar das relações mais profundas que o ser humano é capaz de estabelecer consigo mesmo, com os outros e com Deus. A espiritualidade, como experiência, pode ser fruída por pessoas ligadas a quaisquer cultos e crenças e, liturgias e ritos à parte, constitui a substância última e o ápice de toda vida orientada para o mistério da transcendência. O mistério, ainda que não possa bem ser explicitado por não caber ou não poder ser dimensionado pela linguagem, pode ser, na concepção de Maritán, fruído em uma experiência que ultrapassa toda e qualquer relatividade do mundo material.
    Muitos místicos respeitáveis, e aqui cabe uma pequena observação, já que o misticismo contemporâneo parece estar configurado mais como um desarrazoado de proposições do que como uma gama de experiências espirituais legítimas, as quais  requerem esforço e disciplina do sujeito que postula a tal coisa, referem que a busca por uma espiritualidade madura e genuína os levou a desenvolver um sentido de unidade com todos os seres e coisas existentes, e que tal integração revela a fruição da felicidade em seu grau mais elevado. Isso contrasta bastante com a experiência sensorial do prazer que, conquanto faça parte de uma vida saudável, não é capaz de oferecer ao ser humano um sentido profundo das coisas, dado o seu caráter fugidio e impermanente. Quando orientamos as nossas vidas ao imediato, ou melhor, quando elaboramos o sentido da vida de modo a suprimir a transcendência, caímos em um relativismo pouco construtivo porque incapaz de fazer desenvolver em nós as nossas capacidades latentes, ou em uma linguagem Tomista, atualizar nossas potências. Ao estar orientado com este sentido de imanência, por uma confusão de vistas, perde-se a oportunidade de vivenciar a experiencialidade mundana de modo a reter somente o que carrega uma certa perenidade, como os valores, os princípios e as lições auferidas desde as experiências. Podemos dizer que a vida espiritual prepara o espírito para o bem viver e também, o que constitui o objeto dessa reflexão, para o caminho que conduz ao conhecimento da estrutura do mundo, que representa a nossa ciência em sentido estrito.
      O ser humano espiritualizado (independente  se possui ou não uma religião) , onde os valores da verdade, da honestidade estão melhor atualizados, é um instrumento muito mais hábil e rico para se abrir ao mundo dos sensíveis e, através do processo que conduz ao conhecimento, aproximar-se da verdade, seja através do uso metódico da razão, na filosofia, seja mediante o recurso da experimentação, na ciência moderna. Os nossos desejos e crenças, no caso específico da ciência, estão a todo momento interferindo e obliterando a obtenção de uma representação fidedigna do real. O que falar então quando o que nos motiva no ato cognitivo não é o conhecimento em si mesmo, mas a validação destes apriorismos. Quando o espírito não possui o sentimento orientado para a  valorização do conhecimento como um fim em si mesmo, que carrega um valor em si, intrínseco,  e, portanto, digno de ser trazido à luz e apreciado, creio que muito do que poderíamos chamar de conhecimento  já não existe mais.
      Somos da opinião que a vida espiritual deve sempre preceder à vida intelectual, pois o uso dos meios disponíveis a expressão do nosso espírito, sejam as artes, a filosofia, a poesia ou a ciência, encontrarão um cognoscente muito mais maduro porque temperado e lapidado pelas experiências da vida. Não existe honestidade intelectual em uma alma que ainda não é honesta, da mesma maneira que não existe expressão de ciência respeitável em uma alma que ainda não consegue apreciar o valor e a beleza que a busca e a apreciação da verdade carregam. A vida intelectual, como uma dimensão da vida em que o conhecimento em sentido estrito é visado, é uma dimensão restrita e complementar da vida espiritual, de onde o cognoscente, através de disciplina e exercício, à semelhança da vida intelectual, entra em contato com os valores que irão lhe subsidiar e fortalecer em toda a caminhada que ao conhecimento  conduz. Espiritualidade e conhecimento são no fundo duas faces necessárias e complementares que tornam o homem mais sábio. Sábio porque já capaz de integrar o que de melhor as experiências da vida podem lhe oferecer: os valores e princípios. Sábio porque capaz de, através destes mesmos valores e princípios, orientar de maneira irretocável a sua conduta ético-metodológica na busca por leis,  relações causais e significados.  Quando o valor que o conhecimento em si mesmo carrega já nos move, quando a honestidade já nos exorna o caráter, então o trabalho espiritual já está sendo frutuoso, restando apenas que nos arrisquemos pelo fastidioso, porém compensador, caminho que nos conduz ao conhecimento. Não é por outra razão que Allan Kardec certa vez enunciou, com relação a complementariedade da vida moral e intelectual, uma normativa que se eternizou nos meios espíritas que, com grande atualidade, dizia: "Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí- vos, eis o segundo."

sábado, 22 de outubro de 2016

O caminho da cruz e a espiritualidade





Ao carregar o madeiro infame, representando o triunfo temporário dos difamadores e dos interesses mundanos em detrimento da justiça, Jesus exemplificou, dentre tantas coisas que podem ser objeto de uma outra reflexão,o destino daqueles que buscam viver alinhados com os mais nobres ideais de justiça e dignidade. As incompreensões, as ridicularizações e os ataques da maldade mal-disfarçada reapareceram ao longo da história não apenas àqueles que posteriormente vivenciaram a mensagem do Evangelho, mas também àqueles outros que se levantaram contra os formalismos de todos os tempos. O formalismo, ou seja, a valorização da forma em detrimento da essência de um princípio ou valor, sempre se prestou a manutenção dos privilégios e dos interesses mundanos em detrimento dos valores espirituais. " A letra mata, mas o espírito vivifica", já dizia o Mestre Nazareno. Onde encontrar, então, o espírito do Evangelho senão na própria experiência de vida de Jesus? 
O calvário sempre representou para mim o triunfo momentâneo da mentira e da injustiça. A condenação, o calvário e a crucificação são momentos distintos mas que podem ser objetos de uma leitura unificada, quando o que os unifica é a vitória temporária dos interesses materiais daquele povo, naquele tempo, sobre as perenes lições reveladas pelo Mestre de Nazaré. E o tempo, como um ótimo juiz, se encarregou de estabelecer a solidez dos valores anteriormente contestados, que serviriam como base para a construção da nossa estimada civilização ocidental. Aí esta parte de nossas raízes, os nossos alicerces e porque não dizer assim, a nossa mais profunda identidade. Mesmo para aqueles que negam isso, tendo em vista os desdobramentos seculares, principalmente a partir da modernidade, já estão embebidos destes valores perenes pois, os modernos,  ao traduzir os valores cristãos para um contexto secular,  não abriram mão  da essência dos mesmos, conquanto eles tenham ficado um pouco desordenados pela falta da base contextual que lhes dimensionava. O que quero dizer é que sem a noção da transcendência, os valores podem ser interpretados fora da sua verdadeira escala: o prazer fugidio pode se transformar em felicidade, a verdade ou a busca dela não raro se transforma em convencionalismo a atender o interesse de grupos restritos, sejam eles políticos e/ou econômicos;  a estética pode servir apenas para refletir e ampliar os modismos de um tempo e não mais embelezar o mundo através de valores ontológicos ou espirituais; e a virtude consistir mais em parecer ou desfrutar de uma boa imagem pública do que viver intensamente e de maneira honesta aquilo que torna o homem realmente virtuoso.
Jesus, sem ser um revolucionário no sentido vulgar do termo, tratou de restabelecer as coisas em sua verdadeira dimensão e identidade. Mesmo quando o triunfo e os aplausos estavam voltados para o avesso do que vivera, nunca se deixou levar pelo espírito do tempo, embora tenha deixado claro que não viera para romper a antiga lei judaica, mas lhe dar prosseguimento. O "espírito do tempo" reflete a capacidade que os homens de um determinada espacialidade- temporal tem de perscrutar ou aproximar-se dos valores perenes, àqueles que estão inscritos na própria estrutura da realidade. Embora os diferentes costumes e as diferentes formas de expressão desses valores derivem da cultura, alguns elementos comuns, estruturais, se repetem e revelam a objetividade dos mesmos. Justiça, ciência, amor, amizade, conquanto adquiram formas peculiares devido à diversidade cultural, preservam ontologicamente seu conteúdo essencial, a ser descoberto pelos homens ao longo do tempo histórico.  O princípio segundo o qual o ser se diz de muitas maneiras, embora preserve uma unidade focal, conforme asseverou Aristóteles, parece poder ser aplicado aqui. O ser das coisas, conforme referido, adquire diversos formatos a depender da cultura na qual se está a  analisar, embora preserve uma estrutura básica que permite aos homens a identificação dos diversos seres. O ser da justiça, o ser do amor, o ser da amizade podem ser reconhecidos inter-culturalmente justamente porque apresentam elementos que podem ser identificados por todos os homens com capacidade de sentir e inteligir.
A reflexão parece fugir um pouco do objetivo inicial, mas alinha-se aos propósitos originais quando buscamos refletir sobre o modo como nos inserimos no espírito deste tempo. Estamos sendo verdadeiramente cristãos, amando, respeitando e sendo indulgentes com as faltas alheias e firmes em nossa própria conduta e propósito? Ou preferimos o aspecto formal do cristianismo, nos desapegando da essência dos ensinos evangélicos? ou ainda, se nos descristianizamos de tal modo que nos reconhecemos perfeitamente vivendo em um mundo cada vez mais hostil aos valores cristãos? Estamos presos ao espírito do tempo, e portanto na imanência, ou estamos no caminho que conduz à transcendência, aos valores perenes? 
Voltemo-nos, portanto, ao caminho da cruz, que nos ensina que mais vale o peso da contrariedade momentânea, para a vitória futura, do que a vitória momentânea que muitas vezes significa derrota ou estagnação espiritual. O caminho da cruz revela, em um só ato, as agruras e as recompensas do caminho: a primeira sempre momentânea, e a segunda substanciosa, de longa duração e radicada em nossas melhores esperanças. A esperança não sendo considerada como qualquer exterioridade que possa vir ser conquistada, já que o que está em jogo, no caminho da cruz, é a conquista de nós mesmos, hoje e pela eternidade.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Metafísica Aristotélica: a ciência do Ser

      Todos os homens, segundo o estagirita, têm uma inclinação ao conhecimento, e isto se deve à sua própria natureza. Ele demonstra essa afirmação dizendo que existe por parte dos homens uma valorização das sensações, em que pese sua utilidade prática ou não. São, portanto, estimadas em si mesmas, como a sensação da visão, por exemplo.      A destreza [1] pode ser entendida como essa inclinação natural ao saber que, se bem usada, ou seja, se tem como meta o conhecimento em si mesmo, é digna de elogio; entretanto, se mal empregada degenera em esperteza. O que muda é o status de dignidade que ela adquire conforme a maneira como é utilizada pelos homens. O que torna, portanto, essa capacidade digna ou não são os fins que se busca atingir com a mesma.
    A viagem que conduz ao conhecimento começa através das sensações, que decorrem do contato humano com a realidade exterior. Os animais, por natureza, nascem dotados da capacidade de sentir, e a partir das sensações que experimentam, em alguns se forma a memória e em outros não. Os animais onde a memória surge, diz o filósofo, são mais perspicazes do aqueles em que a memória não se engendra.
    Os homens tem uma peculiar característica com relação aos outros animais inferiores, que é a capacidade de, através da memória, que compreende as diversas recordações dos objetos e fatos ocorridos no mundo, formarem a experiência. A experiência nada mais é do que o conhecimento das coisas particulares. Os objetos do mundo físico, os outros homens, são compreendidos pelo experiente como instâncias pertencentes a certos tipos, como instâncias de universais.
    A prudência [3] só se desenvolve no Ser cognoscente, portanto, quando, a partir da passagem do tempo, e com o auxílio das sensações e da memória, ele começa a produzir um tipo menos preciso de conhecimento, a partir da repetição e do contato com os objetos e fatos do mundo exterior. Cabe ressaltar que este tipo de saber ainda não representa o ápice do conhecimento e nem satisfaz os propósitos de Aristóteles no que tange à ciência buscada.
     O saber de fato, prossegue o filósofo, pertence mais a técnica do que a experiência, pois somente a ciência e a técnica podem favorecer o homem com o conhecimento das explicações profundas ou causas. A pergunta que norteou todo o processo do conhecimento em Aristóteles, “ o que é isto?” só pode ser respondida de modo satisfatório nesta etapa do processo de conhecer. É nesta etapa que se situam os sábios e o seu conhecimento dos universais. A sabedoria [2] é, deste modo, a ciência dos universais.  Ela é possuída pelos sábios, que se distinguem dos experientes por serem conhecedores de princípios e causas que representam o ápice da jornada do conhecer, compreendida em quatro momentos( sensação- memória- experiência- ciência ou técnica), no qual somente o último nível traduz  o conhecimento buscado por Aristóteles, conhecimento em sentido estrito.

Metafísica aristotélica- o princípio de não-contradição

        Aristóteles assevera que há uma ciência que, distintamente das ciências particulares, investiga o ente enquanto ente, ou seja, investiga as propriedades  que fazem com que uma substância seja o que é. Enquanto as ciências particulares como a matemática e a física já partem de axiomas universais, tomados a priori, a ciência do Ser, ou ciência buscada de Aristóteles, investiga quais seriam esses princípios primeiros, estando amparada em um caminho epistemológico que começa com as sensações, passa pela memória, através da qual se adquire o conhecimento em sentido fraco, e tem seu ponto alto com a ciência, quando as causas e explicações, caracterizadas pelo máximo grau de generalização, são conhecidas, ou, dito de outra maneira, quando os universais contidos nos particulares se revelam ao sábio.
      Compete ao filósofo, portanto, e não aos estudiosos da natureza, estabelecer os princípios fundamentais sobre os quais a ciência do Ser deve se fundamentar. O estagirita chega ao conhecimento daquele que é o primeiro princípio, o mais firme de todos, o princípio de não contradição, pelo qual é impossível que um mesmo atributo pertença e não pertença a um mesmo subjacente ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Segundo o filósofo, portanto, é impossível que os contrários pertençam a mesma coisa  ao mesmo tempo, de modo que sobre esse princípio é impossível se enganar, visto que as pessoas se enganam sobre aquilo que desconhecem, e ademais, esse princípio está fundamentado na própria estrutura da realidade, de maneira que ele não se qualifica como uma mera hipótese.
        Sendo o princípio de não contradição  o mais conhecido, sobre o qual é impossível se enganar e necessário, cabe a Aristóteles a defesa do mesmo, conforme o faz no capítulo 4 da metafísica, utilizando a prova por retorsão. Aqui cabe uma pequena distinção feita pelo filósofo sobre a demonstração e a demonstração refutativa. Segundo assevera, ao demonstrar, o interlocutor já postula o princípio a ser defendido, enquanto que em uma prova por refutação, não haveria demonstração nesse sentido considerada. Segundo Lear, a estratégia que Aristóteles adota não é a de convencer alguma pessoa que não acredita no princípio de não contradição, e sim mostrar que mesmo negando o princípio ou não acreditando nele, dele se utiliza, de maneira necessária, quando busca compreender a realidade.
        O estagirita não pretende exigir que o seu adversário afirme que algo é ou não é, mas exige que o interlocutor apenas queira dizer algo com sentido para si mesmo e para outrem.O responsável pela demonstração é o próprio adversário que, ao afirmar que o princípio de não contradição não existe, postula uma declaração com sentido e, portanto, acaba por demonstrar o princípio. Algo não pode ser e não -ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, conforme sustenta o princípio. Portanto, se o princípio de não contradição é falso, tem um significado, e não é verdadeiro ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Logo, ao recusar o princípio, postulando uma declaração, o adversário acaba ele mesmo por demonstrar, por refutação, o princípio.
       Mesmo que não acredite no princípio, ao enunciar algo com pretensão de verdade, o interlocutor acaba por acionar o mesmo. O princípio de não contradição tem, deste modo, uma forma ontológica, ou seja, está inscrito na própria estrutura do real;e uma forma psicológica, conforme referido, já que se algo existe na estrutura da realidade, é impossível conceber a realidade sem fazer referência a este algo.  É impossível conceber que um atributo pertença e não pertença ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto a um ente. O branco e o não branco não coexistem ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto em um mesmo subjacente, o quente e o não quente, o ser e o não ser, e assim por diante. O princípio de não contradição é o mais incontestável, portanto, e fundamento para a ciência do Ser na medida em que, segundo Lear, a própria possibilidade da ação, do pensamento e de uma atitude discursiva dependem da adesão, ainda que inconsciente, à sua verdade.
  
        Referências:
 
 ARISTÓTELES. Metafísica gamma, capítulo 3-4, Tradução Lucas Angioni (não sei o ano, hehe).
 
 LEAR, Jonathan. Aristóteles: O desejo de entender, 2008.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os desertos da vida



"Há ocasiões em que a predominância da vulgaridade e do ressentimento golpeia as expressões da gentileza e da dignidade, parecendo conduzir tudo e todos ao caos... nesse deserto, porém, numa caminhada silenciosa e demorada, surgem os tesouros da reflexão, do entendimento dos valores espirituais, da necessidade de ser pleno."  Joana de Ângelis

Os muitos desertos que atravessamos imprimem suas profundas marcas em nossas vidas: o deserto da incompreensão com que somos analisados e julgados por outrem; o deserto do desrespeito e do não acolhimento que enfrentamos em muitos momentos da caminhada; o deserto da falta de possibilidades materiais dignas; o deserto da ignorância, devido à falta de possibilidades de acesso a cultura dignificante, entre tantos outros elementos com capacidade de supostamente limitar a nossa possibilidade de crescimento, o nosso vir- a -ser. O que parece comum a cada contexto de privação é, como em toda realidade contextual, o seu caráter eminentemente externo que, se acaba por afetar e deixar suas marcas no Ser, não tem o poder de alterar de maneira profunda o que se é.
 Embora as reflexões acerca da natureza humana tenham arrefecido e mesmo desaparecido do debate contemporâneo, sobretudo em contextos leigos, dado que a preocupação principal dos intelectuais  é com a macro realidade histórico-social e de como essa exterioridade criada é capaz de formar a consciência dos indivíduos, o resgate da possibilidade de um Ser cognoscente, com alguma autonomia,  não sendo apenas  um receptáculo de padrões externos (um quase autômato)  é trazida ao debate  por alguns sociólogos de linhagem interpretativa que, sem adentrar na intrincada questão metafísica correspondente, acenam, de maneira reduzida e científica, com alguma possibilidade de agência livre diante da impositiva e coagente realidade externa. A visão de que somos seres cognoscentes não apenas representa, a meu ver, uma aproximação maior da realidade, mas aponta para uma ética da responsabilidade e dos deveres individuais, tão cara nos dias atuais e sem a qual não será possível construir uma sociedade formada por indivíduos maduros e que assumam os resultados inexoráveis de suas próprias ações. Em uma ambiência religiosa, o debate assume outra configuração, de modo que  o Ser, em sua formulação metafísica, é um   elemento crucial na reflexão, e sobre ele uma ética profunda e estruturante, de caráter transcendental, o impele a desenvolver as potencialidades ínsitas de sua natureza  perfectível, e mesmo os ambientes desérticos o favorecem nesse sentido.
 Ter consciência de sua perfectibilidade e das potencialidades que sustentam e promovem, com o auxílio do tempo e dos desertos, essa mesma perfectibilidade, favorece  o viajante. É como se detivesse  um instrumento a lhe indicar o caminho bem como a melhor maneira de caminhar. Os desertos da vida, conforme a alegoria da mensagem, representam os contextos de carência e privação pelos quais devemos atravessar. A aridez, o solo infértil e as dificuldades da estrada não são motivos para o abandono da caminhada nem para os reclames tão comuns quanto compreensíveis. Se bem acolhida, a solidão existencial que o deserto oferece pode alterar o homem de tal modo que o conduza à reflexão. E esta, se bem orientada,  pode favorecer o autoconhecimento e o encontro com a própria dignidade, que não figura nesse ambiente hostil, mas no oásis da própria alma. É da interioridade do Ser que emana a força para vencer as contingências necessárias e para não se deixar influenciar em demasia pelos desertos da vida humana, percorrendo-os a passos firmes. A dignidade humana não é um adorno que conquistamos externamente no jogo das aparências, mas uma força interior que irrompe e nos torna tudo aquilo que podemos ser nesta vida: fortes diante dos infortúnios, conhecedores de nós mesmos e, com efeito, senhores do nosso  próprio destino. Estar conosco mesmo, centrados no valor de nossa própria dignidade intrínseca,  são  condições  necessárias para a travessia e bom proveito da experiência do deserto, pois a solidão experimentada nos desertos exteriores da vida não são nada diante  daquela solidão que experimentamos quando trazemos o deserto para dentro de nós mesmos, ao nos afastarmos de nossa realidade profunda, de nossa dignidade e dos nossos mais caros valores espirituais.