sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os desertos da vida



"Há ocasiões em que a predominância da vulgaridade e do ressentimento golpeia as expressões da gentileza e da dignidade, parecendo conduzir tudo e todos ao caos... nesse deserto, porém, numa caminhada silenciosa e demorada, surgem os tesouros da reflexão, do entendimento dos valores espirituais, da necessidade de ser pleno."  Joana de Ângelis

Os muitos desertos que atravessamos imprimem suas profundas marcas em nossas vidas: o deserto da incompreensão com que somos analisados e julgados por outrem; o deserto do desrespeito e do não acolhimento que enfrentamos em muitos momentos da caminhada; o deserto da falta de possibilidades materiais dignas; o deserto da ignorância, devido à falta de possibilidades de acesso a cultura dignificante, entre tantos outros elementos com capacidade de supostamente limitar a nossa possibilidade de crescimento, o nosso vir- a -ser. O que parece comum a cada contexto de privação é, como em toda realidade contextual, o seu caráter eminentemente externo que, se acaba por afetar e deixar suas marcas no Ser, não tem o poder de alterar de maneira profunda o que se é.
 Embora as reflexões acerca da natureza humana tenham arrefecido e mesmo desaparecido do debate contemporâneo, sobretudo em contextos leigos, dado que a preocupação principal dos intelectuais  é com a macro realidade histórico-social e de como essa exterioridade criada é capaz de formar a consciência dos indivíduos, o resgate da possibilidade de um Ser cognoscente, com alguma autonomia,  não sendo apenas  um receptáculo de padrões externos (um quase autômato)  é trazida ao debate  por alguns sociólogos de linhagem interpretativa que, sem adentrar na intrincada questão metafísica correspondente, acenam, de maneira reduzida e científica, com alguma possibilidade de agência livre diante da impositiva e coagente realidade externa. A visão de que somos seres cognoscentes não apenas representa, a meu ver, uma aproximação maior da realidade, mas aponta para uma ética da responsabilidade e dos deveres individuais, tão cara nos dias atuais e sem a qual não será possível construir uma sociedade formada por indivíduos maduros e que assumam os resultados inexoráveis de suas próprias ações. Em uma ambiência religiosa, o debate assume outra configuração, de modo que  o Ser, em sua formulação metafísica, é um   elemento crucial na reflexão, e sobre ele uma ética profunda e estruturante, de caráter transcendental, o impele a desenvolver as potencialidades ínsitas de sua natureza  perfectível, e mesmo os ambientes desérticos o favorecem nesse sentido.
 Ter consciência de sua perfectibilidade e das potencialidades que sustentam e promovem, com o auxílio do tempo e dos desertos, essa mesma perfectibilidade, favorece  o viajante. É como se detivesse  um instrumento a lhe indicar o caminho bem como a melhor maneira de caminhar. Os desertos da vida, conforme a alegoria da mensagem, representam os contextos de carência e privação pelos quais devemos atravessar. A aridez, o solo infértil e as dificuldades da estrada não são motivos para o abandono da caminhada nem para os reclames tão comuns quanto compreensíveis. Se bem acolhida, a solidão existencial que o deserto oferece pode alterar o homem de tal modo que o conduza à reflexão. E esta, se bem orientada,  pode favorecer o autoconhecimento e o encontro com a própria dignidade, que não figura nesse ambiente hostil, mas no oásis da própria alma. É da interioridade do Ser que emana a força para vencer as contingências necessárias e para não se deixar influenciar em demasia pelos desertos da vida humana, percorrendo-os a passos firmes. A dignidade humana não é um adorno que conquistamos externamente no jogo das aparências, mas uma força interior que irrompe e nos torna tudo aquilo que podemos ser nesta vida: fortes diante dos infortúnios, conhecedores de nós mesmos e, com efeito, senhores do nosso  próprio destino. Estar conosco mesmo, centrados no valor de nossa própria dignidade intrínseca,  são  condições  necessárias para a travessia e bom proveito da experiência do deserto, pois a solidão experimentada nos desertos exteriores da vida não são nada diante  daquela solidão que experimentamos quando trazemos o deserto para dentro de nós mesmos, ao nos afastarmos de nossa realidade profunda, de nossa dignidade e dos nossos mais caros valores espirituais.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A experiência da vida e os valores intrínsecos e perenes









"Tudo passa e tudo se renova na terra, mas o que vem do céu permanecerá." Chico Xavier







De maneira geral, a relação entre esses termos não aparece de maneira sistemática no espiritismo, ou seja, não há uma preocupação em apresentar essas noções, bem como a interdependência entre elas, a partir de uma teorização sistemática. Por serem noções muito complexas, a preocupação central de Allan Kardec e dos espíritos que trabalharam na codificação é apresentar as ideias de maneira mais livre possível; pois se o pensamento sistemático e o conceito fechado tem o mérito de tornar o mundo cognoscível, não raro, o seu abuso pode favorecer simplificações e, portanto, não  captar as contradições e os movimentos da realidade. A casa da palavra, embora seja o veículo  por excelência da  comunicação entre os homens, pode se tornar um óbice para o entendimento da realidade, sobretudo daquelas realidades que podem ser experimentadas e compreendidas de maneira radical através de uma vivência espiritual.
É no mundo ordinário, em nossa vida de relação, que experimentamos um conjunto multifacetado de experiências, cada qual compreendendo um valor intrínseco distinto, que por sua vez, aciona ou atualiza potencialidades da alma igualmente distintas. Os sofrimentos no mundo, embora não devam ser procurados voluntariamente pelos homens, mas antes evitados, podem cumprir um importante papel, por exemplo, na sensibilização humana, na apreensão de valores como a justiça, o bem e o amor, que, em um contexto experiencial de carência, podem ser revalorizados. Ao passar por essas experiências, a consciência superficial ou egoica, não raro, não possui as ferramentas necessárias para divisar e aprender as lições importantes que se escondem por detrás de toda a experiência dolorosa. Muitos de nós já experimentamos o desamor, a injustiça e a incompreensão. E  é justamente essas misérias que nos tornam mais cônscios, mas sobretudo mais sensíveis (e isso é fundamental) sobre a necessidade de incorporarmos o amor,a justiça e a compreensão à nossa própria conduta. Alguma coisa fica desalinhada em uma relação que não tem como base esses valores essenciais, e é pela falta deles que o sofrimento se desenvolve. O sofrimento se apresenta, portanto, quando a realidade desaparece ou fenece. De algum modo, a natureza encontrou meios de dizer para o homem que a não observância de valores essenciais provoca a dor, a contrariedade e o desconcerto. Se não há nenhuma base sólida que justifique a aceitação de valores morais fundamentais, se não há de fato uma objetividade para os valores, porque a sua não observância  impacta- de maneira objetiva-  a realidade dos homens?
Se o valor intrínseco à experiência é aprendido e sentido, algo em nós não continua como antes: há um movimento em nossa alma que nos leva a tomar posse dessa nova aquisição. O mundo ganha novos contornos, nossas lentes se ampliam e nossas relações passam a ter as cores do que  existe de eterno no mundo e que, por experimentação, acaba por se eternizar em nós.
O perene está presente na transitoriedade experiencial, não como um prazer que flui ou um sentido que se aguça, mas como uma lição que se sobrepõe a fugacidade das coisas experimentadas. Somente um valor, de fato, é capaz de fazer o espírito se expandir e sair de sua temporária condição de ignorância, atualizar as sua potencialidades e, com isso, conquistar o quinhão de que todos somos herdeiros. E essa herança divina fala  não tanto do prazer que se esgota na fugacidade do imediato, mas de uma felicidade encontrada na possibilidade de ser pleno a partir da descoberta e vivência dos valores permanentes, conforme elucidou o nobre Chico Xavier,

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Cuidar do corpo e do espírito- O evangelho segundo o espiritismo



Essa postagem é a transcrição de uma mensagem do capitulo XVII  de O evangelho segundo o espiritismo, intitulada "Cuidar do corpo e do espírito".

Consistirá na maceração do corpo a perfeição moral? Para resolver essa questão, apoiar-me-ei em princípios elementares e começarei por demonstrar a necessidade de cuidar-se do corpo que, segundo as alternativas de saúde e de enfermidade, influi de maneira muito importante sobre a alma, que cumpre se considere cativa da carne. Para que essa prisioneira viva, se expanda e chegue mesmo a conceber as ilusões da liberdade, tem o corpo de estar são, disposto, forte. Façamos uma comparação: Eis se acham ambos em perfeito estado; que devem fazer para manter o equilíbrio entre as suas aptidões e as suas necessidades tão diferentes? Inevitável parece a luta entre os dois e difícil achar-se o segredo de como chegarem a equilíbrio.
Dois sistemas se defrontam: o dos ascetas, que tem por base o aniquilamento do corpo, e o dos materialistas, que se baseia no rebaixamento da alma. Duas violências quase tão insensatas uma quanto a outra. Ao lado desses dois grandes partidos, formiga a numerosa tribo dos indiferentes que, sem convicção e sem paixão, são mornos no amar e econômicos no gozar. Onde, então, a sabedoria? Onde, então, a ciência de viver? em parte alguma; e o grande problema ficaria sem solução, se o espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, demonstrando-lhes as relações que existem entre o corpo e a alma e dizendo-lhes que, por se acharem em dependência mútua, importa cuidar de ambos... Sereis, porventura, mais perfeitos se, martirizando o corpo, não vos tornardes menos egoístas, nem menos orgulhosos e mais caritativos para com o vosso próximo: Não, a perfeição não está nisso: está toda nas reformas por que fizerdes passar o vosso espírito. Dobrai-o, submetei-o, humilhai-o, mortificai-o: esse o meio de o tornardes dócil à vontade de Deus e o único de alcançardes a perfeição (Espírito protetor, Paris, 1863).

sábado, 6 de agosto de 2016

Sobre a tolerância




Em um primeiro momento, essa palavra pode causar uma certa aversão às pessoas de consciência reta, pois ao longo do tempo foi ganhando uma conotação  de "aguentar" o outro em sua diferença física e consciencial; entretanto, mais do que nunca, a tolerância, em seu sentido profundo, é, e será, um valor muito importante para o estabelecimento de relações harmônicas entre as pessoas.
A tolerância pode ser entendida como um exercício espiritual dos mais importantes: buscar compreender as razões e os valores do outro, sem ter a necessidade de incorporar esses mesmos valores ao seu próprio modo de ser e de enxergar a vida é, no meu modo de entender, uma definição satisfatória para essa "prática".
A liberdade de consciência que ao longo dos séculos foi se construindo no ocidente é algo admirável e deve ser preservada de qualquer tipo de imposição autoritária, seja ela ideológica, seja ela religiosa. Em um ambiente saudável, onde circulam as boas ideias, divergentes, e que fomentam um debate intelectual maduro, chega-se a soluções moderadas e com um maior grau de razoabilidade do que em ambientes sociais onde há cerceamento e coação intelectual. Muitas vezes encontramos esses ambientes obscuros nas escolas, faculdades e até mesmo nos espaços dedicados aos estudos religiosos. Tudo isso deriva da não aceitação do outro, de sua livre consciência e de sua capacidade cognoscitiva própria que, de maneira igualmente singular, faculta diversos entendimentos sobre a realidade. Talvez a pretensão de esgotar a realidade a partir de uma ou duas visões correntes, os interesses políticos e os interesses pela manutenção de hierarquias de poder podem contribuir para que essa atitude de não reconhecimento da autonomia do outro- e aqui estou me referindo a autonomia intelectual que é, de todas as possíveis, a mais profunda, pois tem a capacidade de revelar o Ser- seja levada a termo com frequência.
O ser tolerante não é um falar sobre tolerância. Em um nível puramente mental qualquer um de nós é capaz de fornecer um entendimento razoável sobre a tolerância enquanto conceito; contudo, vivê-la de uma maneira profunda implica um grande desafio, que no fim das contas, consiste em respeitar a consciência do próximo, um dos princípios basilares do Evangelho de Jesus.
Jesus exemplificou a tolerância em seu tempo andando com pessoas das mais diversas: desde as que eram consideradas de má vida, até aquelas outras que desfrutavam do respeito de seus pares, geralmente por estarem bem posicionadas na hierarquia social. Em íntima ligação com Deus e, portanto, conhecedor de toda a verdade, não julgou a quem quer que fosse, apenas acolheu integralmente a todos. Não consentindo com os erros, mas permanecendo compreensivo diante das fraquezas humanas, deixou à posteridade um legado de respeito pela dignidade humana e de encorajamento para o enfrentamento dos árduos trabalhos espirituais futuros. O exemplo de Jesus revela uma maneira (que é o nosso fim) de enxergar a realidade: reconhecer  o direito do outro de ter as suas próprias experiências, e de formar, deste modo, sua própria consciência. Disso não se segue que um cristão tenha necessariamente que adotar uma atitude relativista, ou que tenha que viver o mundo com valores estranhos aos seus, mas que tenha uma postura fundamentada no respeito à dignidade, conforme referiu-se, e no livre arbítrio, que é um dos valores fundantes da nossa civilização. Claro, quando a nossa pretensa "liberdade" não desrespeite a liberdade dos outros e mesmo a dignidade e sacralidade da vida humana, que vem sendo bastante atacada nos dias de hoje por ideologias que carregam um materialismo destrutivo.
Por fim, talvez a profunda amorosidade de Jesus, com as pessoas que lhe vinham de todas as partes, se devesse pela maneira como  enxergava as pessoas para além da forma com que se apresentavam a ele. O véu da nossa precária condição atual esconde a nossa sacralidade intrínseca, o nosso pertencimento a uma ordem transcendental, a uma irmandade que foi planejada por Deus desde a criação, e que Jesus tinha acesso devido a sua alta condição espiritual. A palavra tolerância vem sendo ventilada nos dias atuais por indivíduos notadamente intolerantes. A tolerância não é um arrazoado bonito que esteja disposto em páginas livrescas, mas é uma atitude existencial que tem o dom de acalmar e iluminar os ambientes onde os valores são enunciados mas não são vividos, e que são facilmente percebidos pelas pessoas que estejam dispostas a vivê-los. Ver o outro em sua realidade profunda, como Jesus enxergava, é a única maneira de vivermos em um mundo tão pluralista sob todos os aspectos, dando aos outros o direito de ser como lhes apraz e a nós buscando ser como devemos, cada vez mais cristãos, conforme enunciou certa vez Chico Xavier.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A candeia sob o alqueire



"Não há ninguém que, depois de ter acendido uma candeia, a cubra com um vaso ou a coloque sob uma cama; mas a põe sobre o candeeeiro, a fim de que aqueles que entrem vejam a luz; porque não há nada de secreto que não deva ser descoberto, nem nada de oculto que não deva ser conhecido e manifestar-se publicamente."

A luz a que a passagem bíblica se refere, também encontrada em o Evangelho Segundo o Espiritismo. é a doutrina de Jesus em sua máxima pureza. As reflexões posteriores dos espíritos superiores falam que, em um determinado grau de desenvolvimento intelecto-moral, os povos de maneira geral e os indivíduos em particular já tem condições suficientes para assimilar o conteúdo de novas revelações. Revelações essas que transcendem os meritórios esforços dos espíritos de ciência que, quando em uma busca sincera pela verdade, contribuem a seu modo com o progresso geral.
Uma forma de dar vida aos valores que representam a luz que fora revelada, colocando-a sobre o candeeiro, para utilizarmos a alegoria referida na passagem do Evangelho, é através da nossa própria vivência. Como cristãos temos uma responsabilidade muito grande com este mundo e para conosco mesmo, que é a de fazer reviver a maneira e os atos de Jesus em nossas vidas. Por mais distante que isso possa nos parecer em um primeiro momento, dada as nossas imensas limitações, devemos buscar aos poucos incorporar esses valores à nossa conduta, de modo que tornemo-nos habilitados para anunciar o Evangelho, não com palavras, nos locais onde se realizam esgrimas intelectuais, mas nos lugares onde a nossa pequena quota de amor possa se expandir, levando, com isso, esperança onde antes não havia. Encontrar e desenvolver Jesus em nós e anunciá-lo através da expansão em direção aos outros de nossas pequenas virtudes, eis a tarefa que nos cabe realizar.

sábado, 23 de julho de 2016

A vocação



Esta é uma das citações que mais aprecio quando o tema é vocação. Encontra-se no livro- "A consciência de si", do filósofo Francês Louis Lavelle, aí vai:


“Toda a infelicidade dos homens vem de que não existe nada mais difícil, para cada um deles, do que discernir seu próprio gênio. Quase todos o desconhecem, desconfiam dele, são ingratos para com ele. Empenham-se até em destruí-lo para colocar em seu lugar uma personalidade de empréstimo que lhes parece mais espetacular. Todo o segredo da potência e da alegria consiste em descobrir-se e em ser fiel a si mesmo, tanto nas menores coisas como nas maiores. Até na santidade, trata-se de realizar-se. Quem desempenha melhor o papel que é o seu, e que não pode ser desempenhado por nenhum outro, é também o mais afinado com a ordem universal: ninguém pode ser mais forte nem mais feliz. Toda a nossa responsabilidade recai, portanto, sobre o uso das potências que nos pertencem exclusivamente. Podemos deixar que se percam ou fazê-las frutificar. Assim, nossa vocação só pode ser mantida se permanecemos perpetuamente em seu nível, se nos mostramos sempre dignos dela. O papel de nossa vontade é mais modesto do que imaginamos; é apenas o de servir a nosso gênio, o de destruir diante dele os obstáculos que o freiam, o de fornecer-lhe incessantemente um novo alimento, e não o de modificar seu andamento natural nem o se imprimir-lhe uma direção escolhida por ela.
Existe em todo homem um pensamento secreto que ele deve ter a probidade e a coragem de expor à luz do dia. Não deve preferir a ele uma opinião alheia que lhe pareça mais elevada, mas que, incapaz de se alimentar em seu próprio solo, nele não crescerá. Não podemos esperar possuir outras riquezas além das que já trazemos em nós. Basta explorá-las, em vez de negligenciá-las. Mas elas são familiares demais para que nos pareçam preciosas, e corremos atrás de outros bens que brilham mais e cuja posse nos é recusada. Mesmo que pudéssemos alcançá-los, não deixariam em nossas mãos nada além de sua sombra.
No entanto, a confiança que se tem na própria vocação comporta, por sua vez, perigos. Minha vocação não está feita de antemão; cabe a mim fazê-la; preciso saber extrair de todos os possíveis que estão em mim o possível que devo ser. Também não devo confundir minha vocação com minhas preferências, embora minha preferência mais profunda deva afinar-se com minha vocação, nem o chamado de meu destino com todas as sugestões do momento, embora o momento sempre me proporcione a ocasião à qual devo responder. A sabedoria consiste em reconhecer a missão que só eu sou capaz de cumprir: pôr em seu lugar algum desígnio tomado de empréstimo é traí-la, assim como é traí-la alçar-me a pensamentos mais vastos que os que posso portar.
Ocorre com as vocações individuais, na vida da humanidade, o mesmo que ocorre com as diferentes faculdades, na vida da consciência. Cada faculdade - a inteligência, a sensibilidade ou o querer - deve exercer-se segundo sua lei própria, em sua hora e nas circunstâncias que convêm, caso contrário a consciência não conseguirá realizar sua harmonia nem sua unidade; mas, quando ela se exerce como se deve, é a alma inteira que age nela. Da mesma forma, o destino da humanidade inteira está presente na vocação de cada indivíduo, contanto que ele a aceite e a ame.”




sexta-feira, 22 de julho de 2016

A humildade


"A humildade é uma virtude bem esquecida entre vós; os grandes exemplos que vos foram dados são bem pouco seguidos e, todavia, sem a humildade, podeis ser caridosos para com o vosso próximo? oh! não, porque esse sentimento nivela os homens; diz-lhes que são irmãos, que devem se entreajudarem e os conduz ao bem. Sem a  humildade vos adornais de virtudes que não tendes, como se trouxésseis um vestuário para esconder as deformidades de vosso corpo. Recordai Aquele que nos salva; recordai sua humildade que o fez tão grande,e  o colocou acima de todos os profetas."

Esse pequeno trecho de uma das obras básicas da doutrina espírita, o evangelho segundo o espiritismo, propõe uma interessante reflexão a respeito dessa que é a virtude do realismo: a humildade ou a busca dela nos coloca em nossa real posição no mundo dos homens, conferindo-nos uma posição de igualdade diante dos semelhantes e de entrega a vontade de Deus.
Uma vivência espiritual (ou viver para o espírito) possibilita o encontro com partes de nós mesmos antes desconhecidas. As máscaras com que nos adornamos no mundo tendem a ceder em face do conhecimento de ser quem se é: em geral, e o que nos unifica enquanto seres humanos,  pessoas frágeis do ponto de vista moral, com inúmeros defeitos e padrões comportamentais equivocados, mas com infinitas possibilidades de crescimento, em um eterno vir-a-ser, onde nossas potencialidades são constantemente atualizadas pelo trabalho das experiências e do tempo.
O realismo e a auto-aceitação de nossa  condição, nem sempre tão elevada como supúnhamos, é um primeiro e vigoroso passo para o restante da caminhada espiritual. A consciência desperta e que busca se conhecer é, portanto, uma grande aliada em todo esse processo, de modo que ela pode ter a ciência do caminho a ser percorrido nesta vida, que é apresentado pelos apontamentos do eu profundo ou si mesmo: o que, de acordo com a teologia católica, possibilita ao ser o conhecimento de sua própria vocação.
Conhecer as nossas fraquezas, por fim, permite-nos desenvolver uma maior compaixão pelas fraquezas alheias, o que sem nenhuma dúvida nos aproxima do exemplo de Jesus e das lições perenes do seu Evangelho. Longe de ser uma fraqueza, a humildade é a prova mais evidente de que a alma se despojou de sua inconsciência ( no sentido de não ter ciência) e superficialidade, e já consegue tornar manifesta em grande medida a sua força interior que, afinal, é a sua verdadeira natureza. Tornar-se o que se é, em essência, é a  vocação pela qual somos todos chamados por Deus, e isso conseguiremos mediante autoconhecimento, trabalho e partilha.